Vivemos em um tempo em que nossa atenção está constantemente fragmentada e interrompida. Essa realidade produz um estresse muito grande para o nosso cérebro, algo que percebemos no nosso dia a dia.
O impacto desse tempo é visível não apenas no desenvolvimento dos mais jovens, mas também em nós, adultos, na nossa capacidade de atenção. A tecnologia e o tempo que vivemos, com a atenção a todo momento interrompida, são percebidos como os principais desafios do professor hoje.
Às vezes, terminamos o dia exaustos e nos damos conta: “eu não carreguei não sei quantos quilos de feijão nas costas, eu não estava trabalhando na roça”. O que estava acontecendo, na verdade, é que estávamos expostos a estímulos visuais, auditivos, sensoriais e táteis o tempo todo. Essa sobrecarga de estímulos, agravada pela conectividade constante, nos esgota de uma forma que muitas vezes, simplesmente, apagamos — o nosso corpo desliga.
Se isso é um desafio para nós, adultos, que supostamente temos mais recursos emocional para lidar com essa enxurrada de estímulos, imagine o que é para as crianças e imagine o que é para um professor com 20, 30 crianças em uma sala de aula sobrecarregada.
Este cenário de sobrecarga mental se soma a uma realidade onde as crianças estão sem espaço para exercer a infância com liberdade. Falta-lhes a liberdade no sentido de:
- Ocupação do espaço público
- Autonomia
- Desenvolvimento socioemocional
Com isso, muitas demandas de desenvolvimento que deveriam ser compartilhadas por várias instâncias estão sendo trazidas para a escola.
Há uma percepção de que a escola e o professor são os principais ou os únicos responsáveis por dar conta dessas questões, e eles não são. Eles são apenas uma das instâncias que deve dar conta disso, mas não a única.
O resultado é que a docência se torna uma profissão onde os professores estão cada vez mais cansados. Esse cansaço não é da relação com as crianças, mas sim das responsabilidades que lhes são atribuídas. Muitas dessas responsabilidades, inclusive, não são deles, mas estão sendo colocadas sobre seus ombros sem que sejam criadas as condições necessárias para que possam assumi-las.
A sobrecarga não está apenas nos estímulos digitais e sensoriais, mas na sobrecarga de papéis exigidos da escola, do professor e da própria criança, que perde seu espaço de liberdade. O desafio de lidar com a tecnologia e com essa sobrecarga de demandas configura-se como a dupla principal de obstáculos para quem atua hoje na educação.